6. MEDICINA E BEM-ESTAR 22.8.12

DOS SUPERATLETAS PARA VOC 

Tratamentos, exames e diversas tecnologias desenvolvidas a partir dos estudos com os esportistas de elite chegam ao dia a dia das clnicas e hospitais e beneficiam milhares de pacientes
Mnica Tarantino e Monique Oliveira

Quando um paciente com insuficincia cardaca recebe um programa de exerccios fsicos personalizado ou um praticante de tnis  submetido a uma cirurgia pouqussimo agressiva para recuperar uma leso no quadril, eles podem no saber, mas esto se benefciando de tcnicas avanadas usadas antes em atletas. Tratamentos como esses s foram possveis graas s pesquisas da cincia do esporte, realizadas para entender do que so feitos os atletas de elite, esses seres de incrvel capacidade fsica que, mais uma vez, encantaram o mundo na ltima Olimpada. Gente do porte do jamaicano Usain Bolt, do americano Michael Phelps e da brasileira Yane Marques. Medalha de bronze no pentatlo moderno (esgrima, natao, hipismo, tiro esportivo e corrida), a pernambucana de 28 anos creditou parte de seu sucesso a esses estudos. Nos ltimos anos, temos trabalhado muito em relao  cincia do esporte: biomecnica, biomedicina, uma srie de testes e exames, disse ela logo aps a vitria. Isso pode fazer diferena de meio segundo numa prova. Foi o que garantiu meu melhor tempo na natao. Cedo ou tarde, os ensinamentos extrados dessas pesquisas migram do Olimpo do esporte para o dia a dia das clnicas e hospitais. E l tambm so o diferencial: criam uma medicina sofisticada, eficaz. A medicina vinda dos superatletas.
 
A ttulo de comparao, o que acontece com o esporte e a medicina  o mesmo observado com a Frmula 1 e a indstria automobilstica. Ou seja, a partir do excepcional, obtm-se lies que servem de base para solues que facilitam a vida de todos. Muito do design e da potncia dos carros de hoje veio de conceitos criados para a Frmula 1. No que diz respeito ao esporte e  sade, a cincia aprendeu demais sobre o corpo humano estudando os superatletas. Uma das maiores contribuies foi no campo cardaco. Em 1989, a observao de esquiadores de cross country (espcie de maratona com distncias que chegam a 50 quilmetros) mostrou que o corao deles tinha dimenses diferentes. Ele chega a ser 50% maior na espessura do ventrculo esquerdo, responsvel por bombear o sangue, afirma o mdico Nabil Ghorayeb, da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Esse aumento de tamanho se deve  necessidade imposta ao corao dos atletas de mandar mais sangue para o corpo, submetido a extrema demanda.

A descoberta inaugurou um vasto campo de pesquisa para entender como funciona o corao do atleta. O objetivo era observar seus limites  e cuidar para no ultrapass-los  e encontrar atalhos para melhorar a performance. Dessa busca brotaram informaes preciosas, como a de que  preciso se exercitar dentro de uma frequncia cardaca individual. Dados como esses ajudaram a criar planos de exerccios para pacientes com doenas cardacas, diz o mdico Jomar de Souza, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Exerccio e do Esporte.
 
No Instituto do Corao, em So Paulo, o programa de reabilitao para portadores de insuficincia cardaca (incapacidade de o corao bombear o sangue) foi montado com base nessas descobertas. Aprendemos a dosar tanto os benefcios quanto os desgastes causados pelo exerccio, conta Carlos Eduardo Negro, diretor da Unidade de Reabilitao Cardiovascular da instituio. Essas informaes auxiliam ainda no tratamento da hipertenso. Observando os atletas, vimos que a atividade fsica aumenta a rede de vasos sanguneos nos msculos, o que diminui a presso arterial, diz Negro. Adaptamos esse conhecimento para os pacientes.

AVANO - A medalhista Yane Marques creditou parte e seu sucesso  cincia do esporte
 
H outros exemplos na rea. Os testes de esforo, as esteiras, os aparelhos portteis para medir a frequncia cardaca, tudo isso comeou para avaliar os esportistas. Mais recentemente, tornou-se disponvel o teste para medir a concentrao da creatina kinase, enzima que tem sua quantidade elevada quando o msculo est em processo de fadiga durante o exerccio. A medida d ideia da carga de exerccio que o indivduo pode receber. Uma frao da enzima, especfica do msculo cardaco, hoje serve tambm como indicador de infarto.
 
A observao dos superatletas influencia a confeco dos treinos das pessoas comuns. A partir dela, sacramentou-se, por exemplo, o conceito de que  melhor fazer o exerccio de forma moderada do que intensa. A adeso  maior, afirma Victor Matsudo, vice-presidente do Conselho Internacional de Cincias do Esporte. E os benefcios para a sade so efetivos. E tambm se confirmou a importncia da musculao. Constatou-se que ela aumenta a proteo do aparelho locomotor, diz o mdico Andr Pedrinelli, do Hospital Santa Catarina, em So Paulo.

Dada a recorrncia de leses em atletas, a medicina esportiva teve que encontrar sadas mais efetivas para evit-las, e delas tambm se beneficiam todos. Dependendo de como um atleta realiza o exerccio, ele pode sobrecarregar o msculo, que fica vulnervel a leses, diz o ortopedista Paulo Barone, de So Paulo, diretor da clnica Sportslab. Para impedir que esse desgaste acontea, um dos instrumentos usados  neles e nos outros   a anlise isocintica. Trata-se de um aparelho que, por meio da avaliao de variaes de fora, potncia e resistncia, detecta se um msculo est mais fraco do que outro. Esse desequilbrio  um dos fatores que mais geram leses ou diminuio de performance, diz Barone. Com os dados fornecidos pelo aparelho,  possvel trabalhar o msculo que est mais fraco, o que equilibra o corpo.
 
Na preveno de leses no pescoo, as pessoas tm  disposio programas usados em pilotos de automobilismo, sujeitos a problemas nessa regio do corpo. Mas os exerccios se aplicam bem a executivos e a outros profissionais que lidam com a tenso e a quem anda de moto, por exemplo, explica o fisiologista do esporte Jos Rubens DElia.

Quando se vai para a rea da ortopedia, os exemplos da medicina que vm dos superatletas se multiplicam. Muito por conta do fato de que os competidores, quando se machucam, precisam de solues eficazes, que permitam recuperao rpida. Caso contrrio, correm o risco de sacrificar a carreira, diz o ortopedista Arnaldo Hernandez, da Universidade de So Paulo. Da procura por tratamentos eficientes e menos agressivos nasceram opes como a cirurgia artroscpica. Nessa modalidade, em vez de cortes enormes, utilizam-se incises mnimas por onde so introduzidas cnulas. Por meio delas, o cirurgio promove os reparos necessrios. Hoje ela  usada de forma rotineira para operar joelhos, por exemplo, diz Hernandez.
 
Outra opo  a injeo de plasma (parte lquida do sangue) rico em plaquetas, responsveis pela coagulao sangunea. No procedimento, sangue do paciente  extrado e centrifugado para que se possa retir-las, adicion-las novamente ao plasma e reinjetar a mistura no lugar da leso. Acredita-se que o mtodo acelere a regenerao de tecidos, contribuindo para tratar desde o rompimento do ligamento at tendinites. Estudos comprovam que uma leso musculoesqueltica que levaria meses para ser tratada se recupera em seis semanas, afirma o mdico Rogrio Teixeira, do Hospital Samaritano de So Paulo.

RECURSO - Antes de se aposentar das piscinas, Phelps contou que dormiu em cmara hiperbrica para se recuperar dos treinos
 
A contar o sucesso com que as terapias transpem o universo dos superatletas,  de esperar muita coisa boa pela frente. Testes clnicos esto sendo feitos em esportistas de alto nvel, por exemplo, para verificar a eficcia de clulas-tronco para regenerar tecidos. Um deles ocorreu na Universidade do Colorado (EUA). Os cientistas injetaram as clulas em 153 atletas com princpio de osteoartrite (desgaste crnico das articulaes). Foram recrutados 24 pacientes para um grupo que recebeu placebo. Aps um ano, os que foram tratados com as clulas-tronco apresentaram alvio da dor em 50%, contra 5% dos outros. No Brasil, as pesquisas vo no sentido de estimular clulas prximas aos msculos esquelticos. So clulas-satlites que podem ser ativadas para acelerar a regenerao muscular, explica o mdico Moises Cohen, da Universidade Federal de So Paulo.
 
Outras ideias interessantes foram testadas por atletas de elite. O nadador Michael Phelps, agora aposentado das piscinas, contou que chegou a trocar sua cama por uma cmara hiperbrica, aparelho que simula condies de altitudes elevadas. O atleta disse que se recuperava melhor dos treinos, uma vez que a mquina ajuda o corpo a absorver o oxignio. A escolha de Phelps j pode ser usufruda em centros na Inglaterra, onde existem mquinas do gnero. Outro exemplo  a esteira Alter-G anti-gravidade, criada para auxiliar no treino de corredores sem expor as articulaes  sobrecarga e para contribuir na recuperao de leses. O aparelho est em pelo menos um local na Inglaterra, onde qualquer um pode us-lo. O mesmo ocorre com a cmara de crioterapia. Nela, o corpo todo  exposto a frio extremo. O recurso  usado para reduzir inflamaes, por exemplo.

Ao assistir a feitos memorveis, como a quebra de recordes por Usain Bolt, a cincia tambm se pergunta como funciona a mente desses indivduos. Como suportam a dor? Como atingem to alta concentrao? Dessas indagaes tambm esto surgindo respostas que ajudaro a todos. Em relao  dor, foi comprovado, em pesquisa recente, que eles a aguentam mais porque desenvolvem maior tolerncia. A observao pode levar  criao de mtodos que ajudem no tratamento da dor crnica, afirmou  ISTO Jonas Tesarz, da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, estudioso do tema. Mais acessvel aos pacientes est o recurso dos tanques de flutuao (cmaras com gua e sal onde o corpo flutua), usados por esportistas para alvio da dor. Em So Paulo, gente comum est usufruindo desse relaxamento na Clnica Inner Fit, mas com a finalidade de suportar a rotina puxada.
 
A garra para se superar a cada competio  mais uma boa lio dos atletas. O esporte ensina como vencer as dificuldades, disse  ISTO David Yukelson, da Universidade da Pensilvnia (EUA). Essa capacidade de transpor limites  um dos ensinamentos importantes que eles nos entregam, concorda a psicloga Katia Rubio, da Universidade de So Paulo. Os profissionais que os ajudam a desenvolver essas habilidades usam as mesmas estratgias para estimular qualquer um que necessite de treino para suportar estresse e cobrana por resultados. Criamos um programa para atenuar momentos de presso, de insegurana, explica a coaching Bete DElia, de So Paulo. O mtodo rene tcnicas de ioga, meditao, alongamento e exerccios, como falar com o espelho projetando valores positivos a seu prprio respeito. No  s no esporte que o corpo e a mente podem ser moldados para superar adversidades, explica Yukelson, da Universidade da Pensilvnia. Todos podem conseguir.

